Torcer pela seleção virou motivo de julgamento nas redes sociais. Uma nova onda de 'fiscais' dita regras sobre como o brasileiro deve — ou não — apoiar o time do país.
Nos últimos anos, uma nova atividade ganhou destaque no Brasil: a de fiscal de torcedor. Essa função peculiar, que parece ter se tornado uma verdadeira moda, consiste em monitorar e criticar o comportamento alheio em relação à seleção brasileira de futebol. Com apenas uma conta em rede social e uma disposição quase missionária, muitos brasileiros se veem na obrigação de ditar regras sobre como os outros devem torcer.
Se você é um torcedor fervoroso da seleção, logo surgem os especialistas da internet para apontar que tal entusiasmo é um sinal de nacionalismo exacerbado, um patriotismo de ocasião ou, em alguns casos, um pecado moderno. Dependendo da reação da comunidade virtual, você pode ser rotulado de pacheco, ufanista ou ingênuo. Afinal, como é possível demonstrar tanto amor por uma seleção que não conquista uma Copa do Mundo há 24 anos?
Agora, se você adota uma postura contrária e declara que não tem muito interesse na seleção, optando por acompanhar seu clube do coração, a resposta é implacável. Você será acusado de antipatriotismo, de menosprezar as tradições nacionais e, em situações mais extremas, de possuir algum tipo de desvio moral. É impressionante como os fiscais da torcida conseguiram transformar duas posições legítimas em comportamentos reprováveis.
No universo desses críticos, torcer é uma obrigação, mas deve ser feita com moderação. É aceitável comemorar, desde que antes se realize uma análise crítica sobre a estrutura da CBF, o calendário do futebol brasileiro, a desigualdade social e, se possível, até mesmo o aquecimento global. O resultado é que muitos parecem mais preocupados em avaliar a torcida dos outros do que em aproveitar os jogos.
Pessoalmente, considero essa situação uma grande bobagem. A seleção brasileira não é um partido político, uma religião ou uma ideologia; é apenas um time de futebol. Um time que, por acaso, ajudou a criar algumas das melhores memórias coletivas deste país. Afinal, milhões de brasileiros guardam na memória momentos inesquecíveis, como a vitória de Romário na Copa de 1994 ou os gols de Ronaldo em 2002.
É inegável que muitos ainda se emocionam ao relembrar lances de Pelé, Tostão e Jairzinho em 1970. Não há nada de errado em nutrir essas recordações, assim como não há problema algum em quem prefere manter distância emocional da seleção e dedicar suas paixões ao clube do coração.
A verdade é que o Brasil enfrenta problemas suficientes para que ninguém precise prestar contas sobre sua forma de torcer. Quando a bola rolar contra o Marrocos, haverá aqueles que vestirão a camisa amarela, os que assistirão ao jogo com indiferença e os que torcerão apenas para que a partida termine logo. No final, todos sobreviverão.
Os únicos que provavelmente continuarão a sofrer serão os fiscais da torcida. Eles carregam uma missão impossível: tentar controlar algo que nunca foi controlável: a paixão dos outros.
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