Foto: Globo — uso em caráter informativo.
A atleta de 23 anos, de Ubatuba, divide treinos com trabalho em quiosque e organiza uma rifa para custear viagens. Única brasileira na categoria feminina do Mundial, ela venceu a etapa no México e lidera o circuito.
Única representante do Brasil na categoria feminina do Mundial de skimboard, Julia Dias tenta conciliar treinos, trabalho e campanhas de apoio para manter viva a chance de conquistar o título do Circuito. Natural de Ubatuba (SP) e com 23 anos, a atleta já acumula feitos inéditos para o país, mas enfrenta a realidade financeira que acompanha modalidades emergentes.
Desenvolvimento
O Circuito Mundial teve início em Cabo San Lucas, no México, em abril deste ano — etapa na qual Julia Dias foi campeã e assumiu a liderança do ranking feminino. Esse mesmo local já havia sido palco de outro feito da brasileira: em 2024 ela conquistou o primeiro título feminino do Brasil em etapas do Mundial. No total, Julia soma quatro títulos de etapa ao longo da carreira.
No final do mês passado, a atleta obteve a terceira colocação em Portugal, resultado que a fez cair para a segunda posição no ranking. Na primeira etapa disputada na Califórnia, nos Estados Unidos, Julia voltou para a liderança e segue na disputa pelo título do Circuito, que terá a etapa final ainda neste mês.
“Eu nunca gostei de competir, só gostava de praticar o skimboard. Embora gostasse de ganhar, nunca fui muito fã de competição. Até que eu entendi que o nível das meninas era muito parecido com o meu. Então por que eu também não poderia estar competindo e mostrando que tenho potencial? Foi quando fui para o México pela primeira vez e ganhei a primeira etapa do Mundial. Foi aí que vi que posso chegar nesse nível também e senti a vontade buscar o título Mundial para o Brasil, que é algo inédito”
Além das conquistas em etapas, Julia dedica parte de sua rotina à escolinha da família, um projeto social que atende crianças na Praia da Sununga, em Ubatuba. A iniciativa serve tanto para formar novos praticantes quanto para fortalecer a presença feminina na modalidade.
Raízes e organização familiar
A relação da família Dias com o skimboard atravessa gerações. O tio e treinador da atleta, Julio Dias, descreve a organização local em torno da prática e a formação de uma associação que buscou dar suporte aos atletas e à difusão do esporte na região.
“A gente herdou dos nossos mais antigos da família essa herança de praticar o esporte na beira da praia e nos organizamos para fazer melhor. Remontamos a Associação, organizamos uma equipe para poder dar suporte ao esporte. Começou com uma pranchinha de madeira simples e a gente ia pra água se divertir. O nome verdadeiro é ‘disco’, mas o ‘sonrisal’ se popularizou com um evento que foi feito aqui na década de 90, patrocinado pela marca de remédio. E aí ficou, pegou o nome, depois veio o skimboard”
“Eu nasci aqui na praia da Sununga. Minha família tem um quiosque desde que eu me conheço por gente, tinha a Associação de Skimboard e fabricavam pranchas. Sempre vi muita gente praticando, então acho que foi inevitável que eu não seguisse nisso. Eu cresci nessa cultura desde criança, a minha família fazendo caldeirada, peixe. Então, dentro dessa cultura caiçara, eu também fui inserida no esporte. Embora o skimboard não seja da cultura caiçara, ele foi inserido aqui, né? O sonrisal, também. Então acho que tá tudo muito junto, mar, praia, ski e a cultura também”
Desafios financeiros e rotina
Formada em Jornalismo, Julia optou por se dedicar integralmente ao esporte, ao mesmo tempo em que mantém atividades na comunidade local e no negócio de família. Para obter recursos para competir, a atleta recorreu a iniciativas como rifas e pedidos de apoio a comércios da região. Ela também trabalha no quiosque da família para complementar a renda.
“Estar no Mundial é um custo muito alto, então eu já fiz rifa, como muitos atletas brasileiros, pedi apoio em comércio da região. Para alguns, não é uma coisa visivelmente bonita estar pedindo dinheiro para outras pessoas na internet, mas para outros atletas é a única maneira de estar presente nas competições e representar não só a sua cidade como o seu país. Torcemos para que no futuro a gente consiga mais apoio para essa modalidade que vem crescendo tanto e que as marcas acreditem, não só em mim, mas como em vários outros atletas que vem crescendo por aí.”
Além dos esforços financeiros, Julia mantém a escolinha familiar em funcionamento enquanto treina para as competições; o projeto social atende crianças da região e busca ampliar a participação feminina no esporte.
O que está em jogo e o calendário
Com a liderança do ranking em disputa, a brasileira chegou ao fim da temporada com a tensão concentrada na última etapa do Circuito Mundial. O resultado em setembro será decisivo para a definição do título da temporada.
Próxima e última etapa do Circuito Mundial
- Datas: 19 e 20 de setembro
- Local: Califórnia, Estados Unidos
A disputa na Califórnia vai apontar quem ficará com o título do Circuito e se Julia conseguirá confirmar a liderança que alcançou após as etapas no México e na Califórnia anteriormente. O torneio final reunirá as competidoras que ainda brigam pelo posto de campeã da temporada.
Fecho: o próximo passo da história
Com currículo que inclui quatro vitórias em etapas e a marca de primeira mulher brasileira a vencer em etapas do Circuito Mundial, Julia Dias ainda tem a oportunidade de coroar a temporada com o título. Para isso, ela e sua equipe familiar precisarão manter o ritmo de treinamentos, o trabalho na escolinha e as campanhas de arrecadação até a disputa decisiva em setembro.
Além do resultado esportivo, a trajetória seguirá servindo como vitrine para a representatividade feminina no skimboard e para a visibilidade do esporte em praças como Ubatuba, onde a cultura da praia e a tradição familiar ainda são fundamentais para a sobrevivência e o crescimento da modalidade.

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