Foto: FIFA — uso em caráter informativo.
Cancelamentos e desistências — como a Gâmbia que não enfrentou a Bolívia — expõem a dificuldade de achar adversários. Custos e logística tornam inviáveis amistosos em casa, mesmo com janelas das Eliminatórias.
A dificuldade de seleções sul-americanas em organizar amistosos em casa voltou a ficar clara com o cancelamento de partidas e com episódios constrangedores nas vésperas de compromissos internacionais. A impossibilidade de achar adversários e os custos logísticos aparecem como entraves para que Brasil e Argentina façam mais partidas em seus gramados, apesar da vantagem numérica que os calendários de Eliminatórias oferecem.
O que aconteceu
Havia a expectativa de que a Bolívia fosse anfitriã contra a Gâmbia no domingo, mas o jogo não saiu: os visitantes africanos desistiram. Em paralelo, a Argentina teve problemas em seus amistosos: o encontro marcado com Burkina Faso no sábado à noite beirou a farsa porque a equipe principal não viajou. Por problemas técnicos com a aeronave ou pela relutância de atletas já exaustos após partidas competitivas na África, a solução de última hora foi enviar a seleção sub-23.
Essa delegação chegou a Buenos Aires no horário do almoço de sábado e foi a campo poucas horas depois no estádio Monumental. O resultado foi severo: a seleção que entrou em campo sofreu três gols nos primeiros onze minutos e terminou derrotada por 7 a 0. Apesar do placar elástico, o técnico da equipe principal admitiu que a situação era longe do ideal e ressaltou a escassez de alternativas entre adversários disponíveis.
Dados concretos e repetidos problemas
Alguns números e fatos ajudam a entender o cenário: as Eliminatórias garantem nove jogos em cada ciclo para seleções sul-americanas, o que já coloca partidas em campo neutro e longas viagens em perspectiva. No caso argentino, a organização de amistosos tem se apoiado em convites a seleções africanas; em março a Albiceleste conseguiu atrair Mauritânia e Zâmbia, e agora planejou confrontos com Burkina Faso e, para a despedida de Lionel Messi, com o Benim. Todas essas seleções africanas citadas não estiveram presentes na última Copa do Mundo.
O duelo contra o Benim, ao menos, aparentemente será realizado sem maiores problemas, segundo a programação divulgada. Já o episódio com Burkina Faso expôs fragilidades logísticas e de interesse dos próprios atletas em realizar partidas com deslocamentos longos entre continentes.
O contexto geográfico e as consequências
Há uma explicação óbvia, de natureza geográfica: a América do Sul, especialmente o Cone Sul, fica muito distante do resto do mundo. Subir no mapa significa, por exemplo, que a distância entre Buenos Aires e a Cidade do México é maior do que aquela entre Londres e Mumbai. Entre um lado e outro do continente estão o Oceano Atlântico e, ao oeste, o Pacífico. Isso transforma qualquer amistoso intercontinental em operação complexa, custosa e pouco atraente para adversários que preferem reduzir viagens longas.
A criação da Liga das Nações tornou ainda mais difícil encaixar jogos contra seleções europeias. No ciclo entre a Copa do Catar e a deste ano, houve pouquíssimas janelas para confrontos Sul America x Europa: basicamente março de 2024, março deste ano e os dias antes do Mundial. Essa compressão de datas reduziu a possibilidade de trazer europeus para a América do Sul — e também limitou o número de oportunidades de ir à Europa para medir forças.
O efeito prático é duplo: a Europa passa a ter um calendário repleto de jogos competitivos contra adversários de nível parecido com deslocamentos mais curtos, o que tende a melhorar o desempenho dentro de campo. Por outro lado, isso reduz a presença europeia em estádios sul-americanos, prejudicando a diversidade de adversários e a receita e apelo dos amistosos realizados na região.
Há também reflexos políticos e institucionais. A Europa, com pouco mais de 50 membros em uma associação de 211 federações, precisa costurar alianças para disputas internas, como votações em instâncias da organização máxima do futebol. Para além da política, a questão prática é que, hoje, as seleções europeias concentram muitos dos melhores jogadores do planeta em seus clubes e veem suas próprias seleções fortalecidas por um calendário que lhes é favorável.
O que está em jogo e os próximos passos
Para as seleções sul-americanas, o problema não é apenas montar uma agenda de amistosos, mas também garantir preparação adequada para competições oficiais e, no caso argentino, proporcionar uma despedida à altura de jogadores como Messi. Em curto prazo, o jogo contra o Benim aparece como o próximo compromisso confirmado que tende a acontecer sem incidentes. Mais além, a questão exige debates sobre janelas internacionais, incentivos econômicos para que seleções de outros continentes aceitem viagens longas e revisões nos calendários de clubes e seleções.
Enquanto a logística e a política do calendário não se ajustarem, partidas com convocações alternativas, deslocamentos de última hora e resultados desproporcionais poderão continuar a ocorrer, com impacto direto na preparação das seleções sul-americanas e na experiência dos torcedores em casa.


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