Foto: Divulgação — uso em caráter informativo.
Brasil abriu 4 a 0 com destaques de Estêvão, mas a partida teve ritmo burocrático e erros do goleiro indiano Gurpreet Singh. Ingressos caros e arquibancadas vazias mudaram o clima no Salt Lake.
Uma vitória por 4 a 0 da seleção brasileira contra a Índia no amistoso disputado no sábado, 3 de outubro de 2026, teve placar dilatado, mas deixou sensação de partida burocrática e que não atingiu o objetivo maior traçado pela confederação. A partida, em Estádio Salt Lake, foi marcada por falhas do goleiro indiano Gurpreet Singh Sandhu, boas atuações pontuais de jovens como Estêvão e por ingressos caros que contribuíram para arquibancadas vazias.
Desenvolvimento: os fatos e os números
O triunfo brasileiro por 4 a 0 veio em jogo que começou com muita posse e pouca efetividade para o lado brasileiro. Estêvão foi apontado como um dos poucos pontos positivos: segundo relatos, o jogador teve participação direta em dois dos gols do primeiro tempo. Em uma das jogadas, ele recebeu passe de Matheuzinho, limpou a marcação, cortou para a perna esquerda e finalizou no canto do goleiro Gurpreet Singh Sandhu, que aceitou o chute. Em outra situação do primeiro tempo, o arqueiro indiano voltou a falhar quando Pedro recebeu do ponta direita e finalizou no meio do gol.
Vinicius Júnior apareceu muito acionado no início da partida, mas teve sequência de tentativas mal finalizadas, sem conseguir traduzir presença em chances convertidas. No segundo tempo, houve algum brilho individual: um atacante do Flamengo deu uma assistência de calcanhar para Samuel Lino ampliar o marcador, e outro atleta rubro-negro fechou a goleada, segundo o apurado. A escalação e as oportunidades dadas a nomes menos habituais à seleção não geraram a sensação de avaliação efetiva devido ao nível técnico inferior do adversário, atualmente na 139ª posição do ranking da Fifa e sem histórico de participação em Copas do Mundo.
O jogo em Kolkata também ficou marcado pelo ambiente: muitos assentos do Estádio Salt Lake permaneceram vazios. Os ingressos chegaram a custar cerca de US$ 200 — aproximadamente R$ 2,6 mil — valor incompatível com a realidade média do país, onde a renda mensal foi reportada em cerca de US$ 270 conforme dados econômicos citados durante a transmissão. A alta bilheteria contrastou com o investimento feito para trazer a seleção, estimado em cerca de 500 milhões de rúpias (cerca de R$ 27 milhões), o que levanta questões sobre quem, de fato, foi o público-alvo desse jogo.
Contexto que amplia a leitura do amistoso
Além do desempenho em campo, o amistoso reacendeu um debate sobre prioridades de agenda e sobre aproximação com a torcida brasileira. Estados do Norte e Centro-Norte do país seguem sem receber a seleção: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins nunca tiveram a seleção nacional em jogos. Outros estados, como Santa Catarina, Piauí, Paraíba e Espírito Santo, não recebiam a equipe há décadas, desde os anos 1990, e Sergipe teve a seleção pela última vez em 1969. Esses dados colocam em perspectiva a escolha por jogar fora do país em partidas que buscariam, em tese, ampliar a base de apoio e reaproximação com o torcedor.
O caminho adotado para a turnê internacional foi criticado por tornar inacessível o evento ao público local na Índia, enquanto, internamente, há áreas do Brasil que seguem sem receber a seleção. Em maio deste ano, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Samir Xaud — no cargo desde 2025 — manifestou intenção pública de aproximar a seleção do público brasileiro após a Copa. Em discurso daquele mês, ele afirmou que traria a seleção para jogar mais no Brasil para resgatar a conexão com os torcedores.
“Depois dessa Copa, vamos trazer a seleção para jogar mais no Brasil do que fora, pois o povo brasileiro merece, e a gente quer resgatar essa conexão com os torcedores, é um compromisso meu.”
O amistoso na Índia, portanto, será lembrado não apenas pelo placar amplo, mas por não ter conseguido cumprir o que foi descrito como o principal objetivo da confederação, segundo avaliação feita sobre o evento: nem o caráter esportivo de avaliação de novos atletas nem a dimensão popular esperada foram plenamente alcançados.
O que está em jogo e o próximo passo
O episódio coloca em jogo a credibilidade de promessas de aproximação com o torcedor brasileiro e aumenta o escrutínio sobre a estratégia de partidas fora do país quando há públicos internos ainda não atendidos. A escolha de mercados e o preço de ingressos para amistosos internacionais entram no debate sobre responsabilidade da entidade organizadora e prioridades de agenda.
O próximo passo da história será a observação das ações da confederação: cabe acompanhar se a promessa de aumentar o número de jogos em território nacional será concretizada, sobretudo levando em conta estados que não recebem a seleção há décadas, como Sergipe, e se haverá mudança de abordagem em relação a usabilidade de bilheteria e acessibilidade quando partidas forem marcadas em mercados com grande disparidade de renda. A partida em 3 de outubro de 2026 ficará registrada como um triunfo pouco esclarecedor — bom no placar, insuficiente como termômetro técnico e discutível em relação ao propósito de reaproximação com torcedores.
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