Foto: Globo — uso em caráter informativo.
Do estrelato com a convocação de Arthur e a venda recorde em 2023, o clube agora amarga déficits e queda de rendimento. Penúltimo na Série B, o Coelho vê sua sustentabilidade ameaçada e risco real de Série C.
O América-MG viveu uma trajetória de extremos: em 3 de março de 2023 o lateral Arthur foi convocado para a seleção brasileira e, pouco depois, se tornou a maior venda da história do clube — momentos que simbolizaram o ápice do ciclo bem-sucedido do Coelho. No entanto, a mesma sequência de anos de glória e receitas elevadas terminou em uma crise que hoje põe o clube em risco de queda para a Série C e compromete sua sustentabilidade financeira.
Do ponto mais alto, com recordes de faturamento e presença em competições continentais, ao penúltimo lugar na tabela da Série B e déficits acumulados, o clube alternou feitos esportivos relevantes e dificuldades administrativas que, somadas, explicam seu atual cenário precário.
Desenvolvimento: números, resultados e marcos
O percurso de ascensão começou a ganhar contornos nacionais em 2020, quando o América-MG foi a grande surpresa da Copa do Brasil e só parou na semifinal diante do Palmeiras. Aquela campanha rendeu ao clube R$ 17,6 milhões em premiações — valor três vezes superior aos R$ 5,7 milhões previstos no orçamento para a rubrica de “competições e jogos” naquele ano.
No Campeonato Brasileiro de 2021 o Coelho fez sua melhor campanha na era dos pontos corridos até então: terminou em 8º lugar e garantiu, pela primeira vez, vaga na Conmebol Libertadores. Em 2022, o clube estreou na Libertadores após uma temporada em que também foi vice no Campeonato Mineiro e evitou o rebaixamento na era dos pontos corridos em outra ocasião.
O ano de 2022 terminou com R$ 53,3 milhões recebidos apenas em premiações — quase metade desse total (R$ 24,7 milhões) vindo da campanha na Série A — e com investimentos em contratações como Mastriani e Martinez, que custaram cerca de R$ 10 milhões aos cofres do clube. Na Libertadores, após superar o Barcelona de Guayaquil nas preliminares nos pênaltis, o América caiu em um grupo com Atlético-MG, Independiente del Valle e Tolima e terminou na lanterna, sem vitórias.
Em 2023, apesar de um recorde de faturamento operacional bruto de R$ 188 milhões e da venda de Arthur ao Bayer Leverkusen — além da convocação do jogador para a seleção brasileira — o clube viveu sinais claros de deterioração esportiva: foi rebaixado no Brasileirão 2023, sendo apontado como o primeiro clube rebaixado naquela edição em função da derrota para o Coritiba. Na mesma temporada o América chegou às quartas de final da Copa do Brasil (eliminado pelo Corinthians) e também atingiu as quartas na Copa Sul-Americana; um dos jogos de destaque da Copa do Brasil aparece registrado como Corinthians 3 (3) x (1) 2 América-MG — placar que ilustra a eliminação nos mata-matas.
Mesmo com goleadas históricas registradas diante de clubes tradicionais sul-americanos como Peñarol e Colo-Colo, o modelo que sustentou o sucesso do início da década não se manteve. Nos exercícios seguintes os prejuízos apertaram: em 2023 o clube fechou com prejuízo de pouco mais de R$ 22 milhões; em 2024 o déficit ultrapassou R$ 58 milhões, aumento de 164% em relação a 2023; e, no ano seguinte, o déficit voltou a crescer, superando os R$ 60 milhões.
Em termos de gestão, a instabilidade também se intensificou: em setembro de 2025 o então presidente da associação, Alencar da Silveira Jr., deixou o posto para assumir cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG). Ainda naquele ano, Dower Junior, CEO e presidente da SAF americana, também se desligou. A partir dessas saídas, Márcio Vidal passou a acumular as funções na associação e na SAF.
Contexto adicional: retrospecto, situação na tabela e o que está em jogo
O equilíbrio entre resultados esportivos e sustentabilidade financeira foi rompido ao longo do ciclo vitorioso. O Coelho viveu pelo menos quatro anos de bons resultados em campo e números robustos nas finanças, com receitas extraordinárias em momentos-chave, mas a sequência de déficits nos demonstrativos indicou que o ritmo de investimento e a estrutura de custos não acompanharam quedas de receita e resultados esportivos.
Na classificação atual da Série B o clube ocupa a penúltima colocação e está descrito como “virtualmente rebaixado” à Série C do Campeonato Brasileiro — expressão que aponta a necessidade de um cenário excepcional para evitar a queda. O que está em jogo é a manutenção do clube em divisões que garantem maior receita de televisão, patrocínios e exposição, além da própria viabilidade da transição para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), cujas negociações estão estagnadas desde 2022, segundo informações divulgadas.
Com déficits que somam dezenas de milhões, a prioridade técnica e administrativa passa pela redução de custos, geração de receitas imediatas (vendas de ativos e jogadores) e a retomada de um plano de investimentos que converse com a realidade esportiva do elenco. O êxito nessas frentes é condição necessária para reverter a curva negativa e tornar o clube atraente a investidores, algo que ainda não se concretizou desde que a proposta de investimento foi analisada pela diretoria.
Fecho: o próximo passo da história
O futuro próximo do América-MG ficará marcado pela necessidade de medidas rápidas e realistas em busca de recuperação esportiva e financeira. O adiamento da implantação da SAF desde 2022, os déficits acumulados e a posição na tabela cobram decisões firmes da diretoria e de eventuais investidores. Resta ao clube uma janela estreita para transformar receita em resultados e reconstituir a confiança de torcedores, patrocinadores e mercados financeiros.
O desfecho desta fase dependerá de movimento nos bastidores: estabilização das finanças, definição clara sobre a SAF e, principalmente, reação imediata em campo para evitar o cenário descrito como virtual rebaixamento à Série C. Essas frentes vão determinar se o América-MG reverterá a crise ou se consolidará um ciclo de declínio que já se arrasta desde 2023.

Siga o Foco no Esporte e acompanhe jogos, resultados e notícias em tempo real.
