Foto: Reuters — uso em caráter informativo.
Itália estreia um novo ciclo sob Roberto Mancini nesta sexta contra a Bélgica, após eliminações em 2018, 2022 e 2026. Convocação traz ampla renovação e presença marcante de jogadores de origem africana.
Depois de três eliminações que marcaram a última década, em 2018, 2022 e 2026, a Itália começa nesta sexta-feira, em duelo contra a Bélgica, um novo ciclo com Roberto Mancini no comando e uma convocação marcada por um notável processo de renovação e diversidade étnica.
O cenário que envolve a Azzurra é de mudança: apesar do legado de quatro títulos mundiais, a equipe enfrenta descrença popular e uma transformação no perfil dos jogadores chamados para tentar recolocar a seleção entre as favoritas nas próximas competições internacionais.
Tentativa de renovação e os números da convocação
Roberto Mancini inicia seu segundo trabalho à frente da seleção italiana tendo pela frente o desafio do grupo A1 da Liga das Nações, que reúne também Bélgica, França e Turquia — três seleções que disputaram a última edição da Copa do Mundo e que nas últimas temporadas aparecem em melhores condições técnicas que a Itália. Mancini convoca um grupo de 34 jogadores, entre os quais nove estreantes: Pessina, Ghilardi, Romano, Sebastiano Esposito, Vergara, Michael Kayode, Kouadio, Doumbia e Zoma.
Dos recém-convocados, Michael Kayode, do Brentford, e Caleb Okoli, do Leicester, aparecem como novidades em posições defensivas. Entre os nomes apontados como novidades estão também atletas com descendência africana: segundo a lista, ao todo são seis jogadores com essa origem entre os 34 convocados — um total inédito para a seleção italiana em termos de presença registrada em uma convocação recente.
“A Itália agora é cosmopolita, multidimensional etnicamente, como a Europa, como o Brasil, como a Austrália… A Espanha um pouco menos. Portugal, obviamente, com as suas antigas colônias. É como a Inglaterra. Igual à França. Um dia a França jogou com todos os jogadores com outras descendências ou origens… É o mundo que muda. Isso também acontece nas equipes.”
— Massimo Franchi
Além dos estreantes citados, o zagueiro Honest Anahor, do Crystal Palace, e o atacante Moise Kean também constam na lista de atletas com descendência africana entre os convocados. A presença de jovens com passaportes e origens diversas reflete transformações demográficas que o país vem vivendo desde os anos 1980, quando deixou de ser apenas um país de emigração para tornar-se destino de fluxos migratórios.
Raízes brasileiras e apostas ofensivas
O lote de novidades inclui ainda um jogador com ligação direta ao Brasil: Samuele Inácio, de 18 anos, atacante do Borussia Dortmund, é filho do ex-jogador brasileiro Inácio Piá, que teve atuação destacada no futebol italiano, sobretudo pelo Napoli. A presença de Inácio entre os chamados reforça a busca por talentos com dupla nacionalidade que possam ampliar as opções ofensivas da seleção.
O cenário ofensivo, contudo, segue com dúvidas: faltam nomes de destaque absolutos no ataque no futebol europeu, e a convocação aponta para jovens que ainda precisam consolidar carreira em clubes de ponta. Entre as esperanças de gol, o texto da convocação destaca Pio Esposito, jovem atacante da Inter de Milão, como uma das principais apostas para abastecer o setor ofensivo no novo ciclo.
Passado recente e a urgência da reconstrução
As ausências nas últimas três Copas do Mundo são tratadas como episódios negativos na história recente do futebol italiano. A seleção perdeu as vagas em confrontos de mata-mata: em 2018 foi eliminada pela Suécia; em 2022 caiu diante da Macedônia do Norte; e em 2026 acabou derrotada pela Bósnia nos pênaltis. O desempenho acumulado cria uma pressão crescente sobre a comissão técnica e sobre os próprios jogadores.
Roberto Mancini, que já havia deixado o cargo após não conseguir a classificação para a Copa de 2022 e que comandou a campanha do título da Euro 2021, volta agora ao comando da Azzurra num momento em que a credibilidade das escolhas técnicas e administrativas foi posta em xeque após uma série de decisões conturbadas na estrutura da federação.
O recomeço da gestão do futebol italiano passou por trocas em cargos de direção. Inicialmente houve uma tentativa de composição que incluiu o nome de Maldini como dirigente e do brasileiro Leonardo como conselheiro, porém a decisão acabou sendo revertida e ambos deixaram os cargos. Em seguida, toda a estrutura foi refeita, Claudio Ranieri foi definido como diretor e Roberto Mancini retornou ao comando técnico.
O que está em jogo e o próximo compromisso
O duelo contra a Bélgica, marcado para esta sexta-feira, será o primeiro teste prático desse novo ciclo. Em termos imediatos, a Liga das Nações servirá como laboratório para observar as opções táticas, o rendimento dos estreantes e a capacidade do grupo em lidar com a tensão que ronda a seleção desde as últimas eliminações. Para a torcida, ainda marcada por cansaço e desinteresse, trata-se de um momento-chave para recuperar alguma confiança.
Além do resultado em campo, o que estará em jogo é a construção de um projeto de longo prazo capaz de reposicionar a Itália entre as seleções que naturalmente disputam as fases finais de Mundiais e grandes competições continentais. A forma como Mancini manejará a convivência entre veteranos e jovens, a integração dos novos talentos e a resposta psicológica do elenco serão determinantes para o rumo deste novo ciclo.
O primeiro capítulo desta história se escreve em campo nesta sexta-feira contra a Bélgica; os sinais coletados nas próximas partidas da Liga das Nações vão orientar as próximas convocações, as prioridades de formação e as expectativas de reconstrução rumo aos próximos torneios internacionais.

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