Foto: Globo — uso em caráter informativo.
Um simulador em Tilburg foi decisivo para Gabriel Bortoleto, que pôs fim a sete anos sem brasileiro titular ao assinar com a Sauber para 2025. Sessões no simulador da Verstappen.com com suporte do Team Redline aceleraram sua carreira.
Um simulador localizado em Tilburg, na Holanda, teve papel relevante na trajetória que recolocou o Brasil com um piloto titular na Fórmula 1: Gabriel Bortoleto. Após sete anos sem representante no grid, o jovem paulista pôs fim à espera ao ser contratado pela Sauber em 2025 — equipe que, na temporada atual, virou o time oficial de fábrica da Audi — e parte dessa aceleração de carreira passa por sessões no Verstappen.com Racing Pro Simulation.
O simulador e sua origem
O equipamento, situado a cerca de 100 km de Amsterdã, nasceu a partir do trabalho do Team Redline, uma equipe voltada a corridas virtuais que se tornou referência no desenvolvimento de simuladores cada vez mais fiéis ao comportamento real dos carros de fórmula. Com o tempo, o projeto foi integrado à marca pessoal de Max Verstappen, daí o nome Verstappen.com Racing Pro Simulation. Além de ser um produto de história competitiva no mundo virtual, o centro em Tilburg vem sendo utilizado para treinar e acelerar o desenvolvimento de jovens pilotos nas categorias de base do automobilismo.
Como o simulador atuou na formação de Bortoleto
No início de sua carreira, Verstappen utilizou intensamente o mundo virtual para complementar seu aprendizado, pulando do kart diretamente para a F3 e chegando à Fórmula 1 aos 16 anos. Essa experiência ajudou a consolidar a ideia de que a simulação pode ser um atalho valioso para aculturar comportamentos de piloto e engenheiro desde os estágios iniciais. A parceria entre Verstappen e o especialista Atze Kerkhof, que se tornou referência em montar simuladores com alta fidelidade, foi determinante para estruturar o centro em Tilburg.
“Isso definitivamente me manteve afiado também fora das pistas, permitindo uma preparação talvez diferente, de formas que não tinham sido exploradas antes. Mas, ao mesmo tempo, era também um hobby. Eu queria crescer dentro da comunidade para mostrar que há possibilidade de pilotos virtuais ingressarem no mundo real. Esse era, em parte, o projeto por trás de tudo. Quando você pilota os carros na vida real pela primeira vez, a experiência virtual ajuda muito na forma como você processa tudo, desde a saída dos boxes até as primeiras voltas.”
— Max Verstappen
Roberto Streit, piloto que representou o Brasil em competições internacionais e hoje atua como coach de talentos como Gabriel Bortoleto e Rafael Câmara, destacou a correlação entre o comportamento do simulador e dos carros de categorias como F4, FREC, F3 e F2. Segundo ele, isso permite treinos intensos e variados em um custo bem menor do que seria necessário no mundo real.
“Depois de muitos anos de desenvolvimento, o simulador que temos aqui em Tilburg, na Holanda, tem uma correlação impressionante com o comportamento de carros de fórmula, como F4, FREC, F3 e F2. Com isso, o piloto vem aqui e, em um dia, conseguimos fazer um treinamento completo, com vários cenários possíveis, níveis de aderência de pista diferentes, direção de vento, saídas com pneus novos, com pneus gastos. Algo que, se ele fosse fazer no mundo real, teria um custo muito maior.”
— Roberto Streit
Com muitas sessões no simulador, Bortoleto teve rápida adaptação aos carros da F3 e da F2, garantindo o título de campeão nas duas categorias — conquistas que o colocaram ao lado de nomes como Charles Leclerc, Oscar Piastri e George Russell no que diz respeito ao percurso de evolução rumo à Fórmula 1. Rafael Câmara também teve aproveitamento notável: já foi campeão da F3 no ano de estreia e figura como terceiro colocado na F2, além de ser o piloto com mais poles na temporada até aqui.
Visita, testes e condições de acesso
O repórter Rodrigo França foi convidado a acelerar no simulador, sob a condição expressa de não produzir fotos ou vídeos, uma medida que protege a exclusividade da metodologia desenvolvida no centro. Na sessão de 30 minutos, foi possível conhecer diferentes programas de treinamento e até testar a pista de Madri, que será homologada pela FIA na próxima semana com os testes de F3.
“Nesta semana (do GP da Holanda de F1), teremos muitos pilotos vindo aqui testar justamente para chegar mais preparados para este primeiro contato da F3 e, mesmo sendo um circuito novo e sem nenhuma referência, conseguimos dar a eles uma boa condição de treinamento.”
— Roberto Streit
O equipamento conta com campo de visão de 180° para imersão ampla e modelos físicos baseados em dados de fábrica e em mais de uma década de experiência em simulação. Após cada sessão, o piloto tem acesso à telemetria completa, com acompanhamento de engenheiros de corrida que oferecem orientações e correções em tempo real — um ponto que também contribui para acelerar o entrosamento entre piloto e engenheiro, crucial nas categorias de desenvolvimento.
Além do centro em Tilburg, a estrutura do simulador se desdobra: pilotos de ponta, como Max Verstappen, mantêm versões próprias do equipamento em suas casas, o que permite treinos contínuos sem a necessidade de deslocamento até a sede do projeto.
Contexto e o que está em jogo
O retorno do Brasil com um piloto titular à Fórmula 1 colocou atenção renovada sobre os caminhos de formação que hoje são mais dependentes de tecnologia e menos exclusivos ao treino em pista. Para jovens brasileiros, a existência de um centro com correlação comprovada aos comportamentos dos carros de F4, F3 e F2 representa uma oportunidade de reduzir custos, acelerar aprendizado e criar repertório técnico em diversas condições de pista. O que está em jogo é a capacidade desses programas de transformar desempenho virtual em resultados em pista, algo que já foi convertido em títulos por pilotos que passaram pelo esquema de treinamento em Tilburg.
Para Bortoleto, a sequência natural da história é consolidar sua participação na Fórmula 1 sob a bandeira brasileira e transformar a chance oferecida pela Sauber em desempenho competitivo no grid. Para outros talentos, o próximo passo passa por aproveitar janelas como a homologação da pista de Madri e as sessões de preparação agendadas para conseguirem contato inicial com traçados que entrarão no calendário das categorias de base.
O simulador em Tilburg segue, portanto, como um polo de desenvolvimento que continuará atraindo pilotos jovens em busca de adaptação rápida e resultados que abram portas para a elite do automobilismo. A história terá novos capítulos nas próximas semanas, com pilotos vindo ao centro para testar e se preparar para o que virá nas categorias de acesso à Fórmula 1.

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