Foto: Imago — uso em caráter informativo.
O futebol feminino atravessa um momento delicado, sendo colocado em evidência pela recente tentativa de Gianni Infantino, presidente da FIFA, de vender participações na Copa do Mundo para investidores privados. Essa iniciativa gerou uma onda de insatisfação entre os stakeholders do esporte, especialmente entre os que acompanham mais de perto a modalidade feminina, que se vê ameaçada em seu crescimento e desenvolvimento.
A análise da jornalista Suzanne Wrack, publicada no “The Guardian”, expõe a situação crítica enfrentada pelo futebol feminino, cuja visibilidade é essencial para seu avanço. Com a Copa do Mundo Feminina Sub-20 programada para acontecer na Polônia no próximo mês, além da Copa do Mundo Feminina Sub-17 e as eliminatórias da UEFA, a proposta de Infantino poderia resultar em severas consequências para esses torneios. A expectativa é que a Copa do Mundo Feminina, que ocorrerá no Brasil em junho de 2027, seja crucial para o desenvolvimento da modalidade no país-sede.
Wrack destaca que a ausência das seleções femininas no Mundial teria sido devastadora. A jornalista reforça que a dependência do futebol feminino em relação das competições internacionais é tão grande que a falta da Copa do Mundo poderia atrasar seu progresso em mais de quatro anos. “O futebol feminino depende tanto da competição internacional para acelerar seu crescimento que o impacto negativo da ausência da Copa do Mundo teria atrasado o progresso em muito mais de quatro anos”, escreveu.
A Copa do Mundo Feminina de 2023, por sua vez, foi a primeira a atingir o ponto de equilíbrio financeiro, gerando mais de US$ 570 milhões (cerca de R$ 2,8 bilhões) em receita, o que coloca a FIFA em uma posição de busca por um bilhão de dólares (R$ 6 bilhões) para a edição de 2027. O plano de Infantino, ao coincidir com a proximidade desses eventos, teve a modalidade feminina como uma das principais afetadas.
A UEFA não estava errada em sua posição, e o subsequente colapso do plano de Infantino após a enorme repercussão negativa demonstra isso. Não foi a entidade máxima do futebol europeu que arquitetou o cronograma que colocou o futebol feminino na linha de frente, e foi correto não excluir o futebol feminino ou o futebol de base de seu arsenal na luta contra a tentativa de Infantino de impor seus planos.
A relação de Infantino com o futebol feminino possui altos e baixos. Embora tenha sido o presidente da FIFA que mais investiu na modalidade, sua gestão é marcada por episódios controversos. Comparando sua postura com a de seu antecessor, Sepp Blatter, que chegou a fazer declarações inapropriadas sobre o futebol feminino, Infantino parece ter uma abordagem mais positiva, mas ainda assim é visto como alguém que utiliza a modalidade como uma oportunidade de ganho financeiro.
Infantino, durante a Copa do Mundo Feminina de 2023, teve uma participação limitada, saindo rumo ao Taiti após menos de uma semana no torneio, enquanto em eventos masculinos, como a Copa do Mundo de 2022, esteve presente em todos os jogos, demonstrando um comprometimento desigual.
Talvez Infantino tenha esperado até o início de um novo ciclo de quatro anos da Copa do Mundo masculina para tentar limitar o impacto de qualquer reação negativa ao evento principal, mas, ao fazer isso, ele adicionou mais uma prova à demonstração da verdadeira postura em relação ao futebol feminino.
Este episódio deve servir de alerta não apenas para os apoiadores do futebol feminino, mas também para todos que se preocupam com o futuro do futebol em geral. Felizmente, o futebol feminino não precisou arcar com o alto custo de um possível boicote, mas a necessidade de atenção e investimento contínuo na modalidade é evidente. A situação atual destaca a importância de um comprometimento real com o desenvolvimento do futebol feminino, que continua a lutar por espaço e reconhecimento em um cenário muitas vezes dominado por decisões financeiras e estratégicas que não consideram suas necessidades.
O próximo passo será observar como a FIFA e seus dirigentes irão se posicionar em relação ao futebol feminino nos próximos meses, especialmente com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil. As decisões tomadas neste período podem determinar o futuro da modalidade e a forma como será tratada nas esferas superiores do futebol mundial.



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